Santa Missa de Despedida e Ação De Graças
Acredito que
todos nós, alguma vez na vida, já nos deparamos com a cena de uma criança
aprendendo a andar. No começo, ela segura firme na mão do pai ou da mãe. Dá um
passinho... depois outro... Até que chega um momento em que a criança, sozinha,
vai soltando a mão dos pais e vai se arriscando a andar. É bastante curioso
porque quem vê a cena de fora, ou é muito sensível, morre de medo de a criança
tropeçar e cair. Eu mesmo, quando meu sobrinho estava aprendendo a andar,
morria de medo de ficar perto, porque ficava agoniado, achando que, a qualquer
momento, ele iria cair e se machucar.
E, às vezes,
acontece de a criança cair. E quem está vendo de fora pode pensar que a criança
caiu porque a mão foi retirada, porque ela estava caminhando sozinha. Mas, na
realidade, não. A mão não desapareceu. Muito menos ela está sozinha. Afinal,
que tipo de pais deixaria uma criança que não sabe andar perambulando por aí?
Na realidade, ela apenas deixou de ser presa pelas mãos para começar a ser
sustentada de outro jeito. Mas ela não está sozinha. Os pais seguem ali.
Vejam: a
criança tropeça, cai, levanta. Olha para trás procurando aquele rosto conhecido
e, quando encontra aquele olhar cheio de confiança, cria coragem para dar mais
um passo. E, quando não consegue, sai chorando, correndo em direção aos pais
para buscar aquele colo gostoso.
E a vida
inteira é assim. Talvez esses mesmos ciclos se repitam todos os dias, não mais
no caminhar, mas no dia a dia. Chorar nos braços de um rosto amado, buscar um
abraço, um conselho ou, principalmente, companhia. Nós vamos crescendo e
aprendendo a caminhar segurando nas mãos que Deus coloca no nosso caminho:
pais, mães, avós, professores, amigos, namorado, namorada... pessoas que
seguram nossa mão durante um tempo. Mas chega um momento em que Deus nos
convida a continuar caminhando. Não porque fomos abandonados, mas porque
aprendemos que a nossa segurança nunca esteve na mão humana, e sim na mão de
Deus.
Os discípulos
estão na barca. O vento sopra contra eles. O mar está revolto. É noite. Jesus
não está visivelmente com eles. E quantas vezes também nós temos a impressão de
que Jesus ficou na montanha enquanto nós enfrentamos a tempestade. Quantas
vezes olhamos para a Igreja, para a nossa família, para a nossa própria vida e
pensamos: "Senhor, onde estás?"
Mas o
Evangelho nos diz uma coisa muito bonita. Jesus nunca perde de vista a barca.
Mesmo quando parece distante, mesmo quando parece silencioso, mesmo quando está
rezando, o olhar de Jesus nunca abandona aqueles que ama.
Depois vem a
cena mais conhecida. Pedro pede para caminhar sobre as águas. E aqui existe
um detalhe que sempre me comove. Pedro não afunda porque saiu da barca. Pedro
afunda porque deixou de olhar para Jesus. Enquanto seus olhos estavam fixos no
Senhor, o impossível se tornava possível. Quando seus olhos se voltaram para o
vento, para as ondas e para o medo, começou a afundar.
Não é
exatamente isso que acontece conosco?
Existem dias
em que olhamos mais para as notícias do que para o Evangelho. Às vezes, podemos
estar vivendo a melhor fase de nossas vidas, mas deixamos problemas tão
pequenos nos afetarem. Às vezes, na escola, no trabalho, com a família, nos
relacionamentos, esquecemo-nos de olhar para o rosto misericordioso de Jesus.
Muitas vezes olhamos mais para os problemas do que para a graça. Olhamos mais
para aquilo que perdemos do que para aquele que permanece. E então o coração
começa a afundar.
O medo sempre
faz isso conosco.
O medo nos faz
acreditar que as ondas são maiores do que Cristo. Mas Jesus não faz um discurso
para Pedro. Não diz: "Eu avisei." Não o repreende longamente.
Faz uma coisa muito simples: estende a mão. Talvez essa seja uma das imagens
mais bonitas de todo o Evangelho.
Antes da
correção vem a mão. Antes da exigência vem a misericórdia. Antes da pergunta "Por
que duvidaste?" vem o gesto de levantar. É assim que Deus educa.
É assim que
Deus forma os seus discípulos. E talvez São Pedro nunca tenha conhecido tão
profundamente Jesus caminhando sobre as águas quanto no instante em que
experimentou aquela mão segurando a sua. Porque, às vezes, conhecemos mais o
amor de Deus nas nossas fraquezas do que nas nossas vitórias.
A primeira
leitura também fala de mãos, embora de outro modo. Jeremias e Ananias aparecem
diante do povo. Ananias quebra um jugo de madeira diante de todos. O gesto
impressiona. É bonito. Dá esperança imediata. Mas Jeremias permanece fiel à
verdade de Deus, ainda que ela seja mais difícil de aceitar.
Como é atual
esta Palavra.
Nós gostamos
das respostas rápidas. Das soluções fáceis. Das promessas que eliminam
imediatamente todo sofrimento. Mas Deus nem sempre tira primeiro a tempestade.
Às vezes, entra conosco dentro dela. Porque há tempestades que não servem para
nos destruir. Servem para amadurecer a nossa fé. Por isso, o salmo nos fazia
rezar: "Afastai-me do caminho da mentira." Não apenas da
mentira dos outros, mas também das mentiras que contamos a nós mesmos. A
mentira de pensar que damos conta sozinhos. A mentira de acreditar que tudo
depende de nós. E, curiosamente, hoje, enquanto preparava esta celebração de
despedida, talvez seja importante lembrar que nada é sobre nós e nada depende
de nós.
Hoje poderia
ser um dia para olhar apenas para trás. Para recordar tantas histórias. Tantos
encontros. Tantas lágrimas. Tantas alegrias. Tanto amor. Tantas brigas,
broncas, momentos de raiva, mas que, no fim, o amor prevaleceu.
Obrigado por
tanto amor. Obrigado por me deixarem amar cada um de vocês e obrigado por me
olharem como Jesus olha para Pedro em meio ao mar.
Obrigado.
Agradeço a
Deus, porque Ele foi infinitamente bom comigo. Agradeço a Deus por ter me
deixado amar vocês. Nunca imaginei que, no dia 2 de março de 2026, ao ser
chamado para ser arcebispo da Paraíba, seria possível viver tantas coisas
bonitas, voltar a encontrar tantas pessoas, partilhar tantas histórias e
experimentar, de maneira tão concreta, o amor.
Às vezes
pensamos que um pastor vem apenas para ensinar, orientar ou governar. Mas a
verdade é que um pastor também precisa aprender a deixar-se amar. E eu fui
muito amado nesta Arquidiocese. Obrigado por poder compartilhar esse amor e por
poder viver isso.
Vocês me
ensinaram isso.
Fui amado nas
orações, nas palavras, nos momentos de alegria e também nas horas difíceis. Por
isso, obrigado.
Obrigado por
terem cuidado de mim, por terem caminhado comigo e, sobretudo, por terem me
lembrado, tantas vezes, de que Deus continua agindo através da simplicidade do
seu povo.
E não posso me
esquecer de também pedir desculpas.
Desculpem
pelas vezes em que não consegui escutar como deveria. Desculpem-me pelas vezes
em que minhas limitações apareceram mais do que o Evangelho. Pelas minhas
ausências e pela minha falta de encontro. Desculpem pelas ocasiões em que,
através da minha insignificância, não encontrei a palavra certa ou o gesto
esperado. Desculpem pelas minhas falhas e pelas minhas dificuldades. Desculpem
também por ter sido insuportável durante a Copa. E saibam que eu ainda amo
vocês, mesmo sabendo que todos estavam jogando praga na seleção argentina.
Afinal, primeiro Deus, em segundo a Argentina, em terceiro a Inglaterra e, em
quarto, a França. Não se esqueçam: a mão de Deus nunca desampara.
Contudo, como
eu já falei várias vezes, parto bem leve, sabendo que levo muito mais do que
trouxe e que vocês serão assistidos por um irmão que é bem maior do que eu.
Hoje levo cada
rosto de vocês no meu coração. Afinal, foi através do rosto de vocês que eu vi
Jesus. Levo tantas histórias que ficarão guardadas na oração. E aqui irei me
permitir parafrasear o grande Lionel Messi (G.O.A.T): "Demostramos una
vez más que los argentinos, cuando luchamos juntos y unidos, somos capaces de
conseguir lo que nos propongamos". Acredito que isso talvez não seja
apenas sobre os argentinos, mas sobre toda humanidade. E com a mais absoluta
certeza, ouso dizer que é uma característica de todos nós católicos, nos
unirmos e fazermos coisas extraordinárias juntos. Obrigado por viver esse
extraordinário. Tudo o que aconteceu nestes cinco meses de arcebispado só
aconteceu por força e vontade de vocês.
Também saio
bastante feliz sabendo que consegui fazer muitos daqui ficarem viciados no mate/chimarrão.
Na realidade, esse era o meu maior objetivo desde o começo, e fico feliz em
saber que consegui levar essa cultura para outra parte.
Brincadeiras à
parte, é bonito perceber que isso combina com o Evangelho que acabamos de
escutar. Pedro só conseguiu caminhar sobre as águas enquanto mantinha os olhos
fixos em Jesus. Quando olhou para o vento, começou a afundar. Talvez essa seja
também a última coisa que eu gostaria de lhes dizer como pastor desta Igreja:
nunca deixem que os ventos ocupem o lugar de Jesus.
Os ventos
passam. As mudanças passam. Os pastores passam. As nossas fragilidades passam.
Mas Cristo permanece. Continuem olhando para Ele. Continuem caminhando juntos.
Continuem confiando que, mesmo nas noites mais escuras, Ele nunca perde de
vista a barca da sua Igreja.
E, se algum
dia sentirem que as forças estão faltando, lembrem-se daquilo que Pedro
descobriu naquela madrugada: antes mesmo de conseguirmos segurar a mão de
Jesus, é Ele quem segura a nossa. Não tenham medo de serem pequenos. É através
das nossas fragilidades que Cristo se faz presente.
Permaneçam no
amor, e tudo o que fizerem, façam em memória de Cristo (1 Cor 11,24).
E, quando
permanecemos n'Ele, descobrimos que, na verdade, ninguém vai embora
completamente. Caminhamos todos para a mesma Casa, guiados pelo mesmo Senhor,
sustentados pela mesma esperança e reunidos, hoje e sempre, ao redor do mesmo
Altar. Uma Igreja onde há espaço para todos, uma Igreja que é como uma grande
família que caminha na unidade, com muita alegria e muita esperança, e que, em
meio à tempestade, está sempre olhando para o rosto humano de Cristo.
Arcebispo Coadjutor de León
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Dom Murilo Herrmann