Homilia | 18ª Semana do Tempo Comum - Santa Missa de Despedida e Ação De Graças


03 de agosto de 2026
 
18ª SEMANA DO TEMPO COMUM
Santa Missa de Despedida e Ação De Graças
 
Acredito que todos nós, alguma vez na vida, já nos deparamos com a cena de uma criança aprendendo a andar. No começo, ela segura firme na mão do pai ou da mãe. Dá um passinho... depois outro... Até que chega um momento em que a criança, sozinha, vai soltando a mão dos pais e vai se arriscando a andar. É bastante curioso porque quem vê a cena de fora, ou é muito sensível, morre de medo de a criança tropeçar e cair. Eu mesmo, quando meu sobrinho estava aprendendo a andar, morria de medo de ficar perto, porque ficava agoniado, achando que, a qualquer momento, ele iria cair e se machucar.

E, às vezes, acontece de a criança cair. E quem está vendo de fora pode pensar que a criança caiu porque a mão foi retirada, porque ela estava caminhando sozinha. Mas, na realidade, não. A mão não desapareceu. Muito menos ela está sozinha. Afinal, que tipo de pais deixaria uma criança que não sabe andar perambulando por aí? Na realidade, ela apenas deixou de ser presa pelas mãos para começar a ser sustentada de outro jeito. Mas ela não está sozinha. Os pais seguem ali.

Vejam: a criança tropeça, cai, levanta. Olha para trás procurando aquele rosto conhecido e, quando encontra aquele olhar cheio de confiança, cria coragem para dar mais um passo. E, quando não consegue, sai chorando, correndo em direção aos pais para buscar aquele colo gostoso.

E a vida inteira é assim. Talvez esses mesmos ciclos se repitam todos os dias, não mais no caminhar, mas no dia a dia. Chorar nos braços de um rosto amado, buscar um abraço, um conselho ou, principalmente, companhia. Nós vamos crescendo e aprendendo a caminhar segurando nas mãos que Deus coloca no nosso caminho: pais, mães, avós, professores, amigos, namorado, namorada... pessoas que seguram nossa mão durante um tempo. Mas chega um momento em que Deus nos convida a continuar caminhando. Não porque fomos abandonados, mas porque aprendemos que a nossa segurança nunca esteve na mão humana, e sim na mão de Deus.

Os discípulos estão na barca. O vento sopra contra eles. O mar está revolto. É noite. Jesus não está visivelmente com eles. E quantas vezes também nós temos a impressão de que Jesus ficou na montanha enquanto nós enfrentamos a tempestade. Quantas vezes olhamos para a Igreja, para a nossa família, para a nossa própria vida e pensamos: "Senhor, onde estás?"

Mas o Evangelho nos diz uma coisa muito bonita. Jesus nunca perde de vista a barca. Mesmo quando parece distante, mesmo quando parece silencioso, mesmo quando está rezando, o olhar de Jesus nunca abandona aqueles que ama.

Depois vem a cena mais conhecida. Pedro pede para caminhar sobre as águas. E aqui existe um detalhe que sempre me comove. Pedro não afunda porque saiu da barca. Pedro afunda porque deixou de olhar para Jesus. Enquanto seus olhos estavam fixos no Senhor, o impossível se tornava possível. Quando seus olhos se voltaram para o vento, para as ondas e para o medo, começou a afundar.

Não é exatamente isso que acontece conosco?

Existem dias em que olhamos mais para as notícias do que para o Evangelho. Às vezes, podemos estar vivendo a melhor fase de nossas vidas, mas deixamos problemas tão pequenos nos afetarem. Às vezes, na escola, no trabalho, com a família, nos relacionamentos, esquecemo-nos de olhar para o rosto misericordioso de Jesus. Muitas vezes olhamos mais para os problemas do que para a graça. Olhamos mais para aquilo que perdemos do que para aquele que permanece. E então o coração começa a afundar.
O medo sempre faz isso conosco.

O medo nos faz acreditar que as ondas são maiores do que Cristo. Mas Jesus não faz um discurso para Pedro. Não diz: "Eu avisei." Não o repreende longamente. Faz uma coisa muito simples: estende a mão. Talvez essa seja uma das imagens mais bonitas de todo o Evangelho.
Antes da correção vem a mão. Antes da exigência vem a misericórdia. Antes da pergunta "Por que duvidaste?" vem o gesto de levantar. É assim que Deus educa.

É assim que Deus forma os seus discípulos. E talvez São Pedro nunca tenha conhecido tão profundamente Jesus caminhando sobre as águas quanto no instante em que experimentou aquela mão segurando a sua. Porque, às vezes, conhecemos mais o amor de Deus nas nossas fraquezas do que nas nossas vitórias.

A primeira leitura também fala de mãos, embora de outro modo. Jeremias e Ananias aparecem diante do povo. Ananias quebra um jugo de madeira diante de todos. O gesto impressiona. É bonito. Dá esperança imediata. Mas Jeremias permanece fiel à verdade de Deus, ainda que ela seja mais difícil de aceitar.

Como é atual esta Palavra.

Nós gostamos das respostas rápidas. Das soluções fáceis. Das promessas que eliminam imediatamente todo sofrimento. Mas Deus nem sempre tira primeiro a tempestade. Às vezes, entra conosco dentro dela. Porque há tempestades que não servem para nos destruir. Servem para amadurecer a nossa fé. Por isso, o salmo nos fazia rezar: "Afastai-me do caminho da mentira." Não apenas da mentira dos outros, mas também das mentiras que contamos a nós mesmos. A mentira de pensar que damos conta sozinhos. A mentira de acreditar que tudo depende de nós. E, curiosamente, hoje, enquanto preparava esta celebração de despedida, talvez seja importante lembrar que nada é sobre nós e nada depende de nós.

Hoje poderia ser um dia para olhar apenas para trás. Para recordar tantas histórias. Tantos encontros. Tantas lágrimas. Tantas alegrias. Tanto amor. Tantas brigas, broncas, momentos de raiva, mas que, no fim, o amor prevaleceu.

Obrigado por tanto amor. Obrigado por me deixarem amar cada um de vocês e obrigado por me olharem como Jesus olha para Pedro em meio ao mar.

Obrigado.

Agradeço a Deus, porque Ele foi infinitamente bom comigo. Agradeço a Deus por ter me deixado amar vocês. Nunca imaginei que, no dia 2 de março de 2026, ao ser chamado para ser arcebispo da Paraíba, seria possível viver tantas coisas bonitas, voltar a encontrar tantas pessoas, partilhar tantas histórias e experimentar, de maneira tão concreta, o amor.

Às vezes pensamos que um pastor vem apenas para ensinar, orientar ou governar. Mas a verdade é que um pastor também precisa aprender a deixar-se amar. E eu fui muito amado nesta Arquidiocese. Obrigado por poder compartilhar esse amor e por poder viver isso.
Vocês me ensinaram isso.

Fui amado nas orações, nas palavras, nos momentos de alegria e também nas horas difíceis. Por isso, obrigado.

Obrigado por terem cuidado de mim, por terem caminhado comigo e, sobretudo, por terem me lembrado, tantas vezes, de que Deus continua agindo através da simplicidade do seu povo.
E não posso me esquecer de também pedir desculpas.

Desculpem pelas vezes em que não consegui escutar como deveria. Desculpem-me pelas vezes em que minhas limitações apareceram mais do que o Evangelho. Pelas minhas ausências e pela minha falta de encontro. Desculpem pelas ocasiões em que, através da minha insignificância, não encontrei a palavra certa ou o gesto esperado. Desculpem pelas minhas falhas e pelas minhas dificuldades. Desculpem também por ter sido insuportável durante a Copa. E saibam que eu ainda amo vocês, mesmo sabendo que todos estavam jogando praga na seleção argentina. Afinal, primeiro Deus, em segundo a Argentina, em terceiro a Inglaterra e, em quarto, a França. Não se esqueçam: a mão de Deus nunca desampara.

Contudo, como eu já falei várias vezes, parto bem leve, sabendo que levo muito mais do que trouxe e que vocês serão assistidos por um irmão que é bem maior do que eu.

Hoje levo cada rosto de vocês no meu coração. Afinal, foi através do rosto de vocês que eu vi Jesus. Levo tantas histórias que ficarão guardadas na oração. E aqui irei me permitir parafrasear o grande Lionel Messi (G.O.A.T): "Demostramos una vez más que los argentinos, cuando luchamos juntos y unidos, somos capaces de conseguir lo que nos propongamos". Acredito que isso talvez não seja apenas sobre os argentinos, mas sobre toda humanidade. E com a mais absoluta certeza, ouso dizer que é uma característica de todos nós católicos, nos unirmos e fazermos coisas extraordinárias juntos. Obrigado por viver esse extraordinário. Tudo o que aconteceu nestes cinco meses de arcebispado só aconteceu por força e vontade de vocês.

Também saio bastante feliz sabendo que consegui fazer muitos daqui ficarem viciados no mate/chimarrão. Na realidade, esse era o meu maior objetivo desde o começo, e fico feliz em saber que consegui levar essa cultura para outra parte.

Brincadeiras à parte, é bonito perceber que isso combina com o Evangelho que acabamos de escutar. Pedro só conseguiu caminhar sobre as águas enquanto mantinha os olhos fixos em Jesus. Quando olhou para o vento, começou a afundar. Talvez essa seja também a última coisa que eu gostaria de lhes dizer como pastor desta Igreja: nunca deixem que os ventos ocupem o lugar de Jesus.

Os ventos passam. As mudanças passam. Os pastores passam. As nossas fragilidades passam. Mas Cristo permanece. Continuem olhando para Ele. Continuem caminhando juntos. Continuem confiando que, mesmo nas noites mais escuras, Ele nunca perde de vista a barca da sua Igreja.

E, se algum dia sentirem que as forças estão faltando, lembrem-se daquilo que Pedro descobriu naquela madrugada: antes mesmo de conseguirmos segurar a mão de Jesus, é Ele quem segura a nossa. Não tenham medo de serem pequenos. É através das nossas fragilidades que Cristo se faz presente.

Permaneçam no amor, e tudo o que fizerem, façam em memória de Cristo (1 Cor 11,24).

E, quando permanecemos n'Ele, descobrimos que, na verdade, ninguém vai embora completamente. Caminhamos todos para a mesma Casa, guiados pelo mesmo Senhor, sustentados pela mesma esperança e reunidos, hoje e sempre, ao redor do mesmo Altar. Uma Igreja onde há espaço para todos, uma Igreja que é como uma grande família que caminha na unidade, com muita alegria e muita esperança, e que, em meio à tempestade, está sempre olhando para o rosto humano de Cristo.

Padre Murilo Cardeal Herrmann
Arcebispo Coadjutor de León

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