06 de agosto de 2026
Minha Despedida e o meu “Até Logo”
Meus queridos
irmãos, acabou...
“Estive
enfermo, e fostes me visitar.” (Mt 25,36). Acredito que, de todos os
Evangelhos que existem, talvez este seja um dos meus favoritos. A razão, muitos
de vocês já sabem: o meu chamado para servir nossos irmãos em situação de
doença. Sempre que escuto esse trecho do Evangelho, penso que Jesus não está
falando apenas daqueles que carregam uma doença. Talvez fosse até limitar o
Evangelho quando pensamos somente na enfermidade física. Há "enfermidades"
que ninguém vê: o cansaço, o medo, a insegurança, a solidão, as dúvidas, as
cruzes escondidas que cada um carrega em silêncio. E, olhando para tudo o que
vivenciamos, percebo que, muitas vezes, eu fui esse enfermo. Afinal, foi
justamente através de vocês que o Senhor veio me visitar.
Durante esses
últimos cinco meses, vocês me visitaram com um abraço (ainda que virtual), com
uma mensagem, com uma oração, com um sorriso, com uma correção feita com
carinho após todas as vezes em que eu falhei, com uma risada depois de um dia
difícil, compartilhando a foto de um mate, com muita paciência diante dos meus
limites e das minhas ausências e, sobretudo, com amor. E, pastoreando a
Arquidiocese de Paraíba do Sul, sinto que Deus confirmou mais uma vez aqui uma
verdade muito bonita e um pouco óbvia, mas da qual eu acabei me esquecendo
enquanto me deixava levar pelo cotidianíssimo: Deus quase sempre escolhe o
rosto das pessoas para se manifestar no meio de nós.
Antes de tudo,
quero pedir perdão por enviar esta mensagem tão tarde. Voltei para a faculdade
uma semana antes para organizar meu planejamento acadêmico e acabei me perdendo
entre os dias, os horários e os compromissos. Também me preparo para participar
do meu primeiro congresso de Medicina (curiosamente, será sobre pancreatite,
justamente a área na qual sonho me especializar – imagino que possam imaginar
como está o meu nível de ansiedade). Mas, no meio desse caos, eu precisava
separar um tempo para poder me despedir e manifestar meu amor mais uma vez a
cada um de vocês.
Assim, chegou
a hora de concluir meu ciclo nesta arquidiocese. Confesso que não foi fácil
encontrar conteúdo ou palavras para escrever esta carta, principalmente
pensando em palavras que fossem capazes de resumir ou descrever tudo o que vivi
aqui no meio de vocês.
Contudo, se eu
tivesse que resumir tudo o que vivi aqui em poucas palavras, acho que
escolheria as três palavras mágicas que sempre lhes ensinei durante todo esse
tempo de arcebispado: gracias, perdón, los quiero mucho!
E hoje me
resta decir gracias.
Gracias
porque Jesus me concedeu a graça de caminhar com vocês. Não à frente de vocês,
nem atrás de vocês, mas ao lado. Como irmãos que aprendem juntos, que às vezes
discordam, que por vezes tropeçam, que até brigam, mas que sempre voltam para a
mesma mesa, onde o Senhor os reúne como uma família. Como eu já disse
anteriormente, foi caminhando com vocês que compreendi um pouco mais o rosto
humano de Jesus.
Se hoje
consigo olhar para o meu ministério com gratidão e ver que cresci como pessoa e
como bispo, não é porque fiz grandes coisas, mas porque Deus realizou grandes
coisas em mim através de vocês. Tudo aquilo que amadureceu no meu coração
nasceu das pequenas coisas que partilhamos no dia a dia: das orações em
conjunto, das conversas, das risadas, das dificuldades, das lágrimas, dos
nossos PVPs e, claro, da esperança que surge no meio da nossa comunidade.
Vocês me
ensinaram que um pastor não é aquele que sabe tudo ou que sempre tem as
respostas corretas. Um pastor é alguém que aprende, todos os dias, a deixar-se
amar pelo seu povo. E, quando não sabe a resposta, cabe dizer: "Eu não
sei". E, quando necessário, chorar um pouco junto com vocês aos pés de
Cristo e implorar pelo olhar reconfortante de Jesus.
Não posso
apenas agradecer; devo também pedir perdón.
Perdón
pelas vezes em que não consegui escutar como deveria. Pelas respostas
apressadas. Pelas ausências. Pelos erros que certamente cometi. Um pastor
continua sendo um homem cheio de limites e fragilidades. E foi justamente no
carinho de vocês que Deus tantas vezes cuidou das minhas próprias feridas.
Parto com o
coração sereno porque sei que esta Igreja não pertence a nenhum bispo, a nenhum
padre e a nenhuma pessoa. Ela pertence a Cristo. Nós passamos; Ele permanece.
Nós mudamos de missão; Ele continua caminhando no meio do seu povo,
sustentando, consolando e conduzindo cada passo da Igreja com infinita
paciência e misericórdia.
Por isso, peço
a vocês, com todo carinho, que acolham com amor o novo pastor que Deus lhes
envia, meu irmão Cardeal Daniel. Abram-lhe o coração. Rezem por ele. Caminhem
ao seu lado. Tenham paciência com ele, como tantas vezes tiveram comigo.
Permitam que ele também aprenda a ser pastor sendo amado por vocês, porque é
assim que Deus forma aqueles que chama.
Não tenham
medo dos planos de Deus. Quando Ele fecha uma etapa, nunca é para tirar alguma
coisa de nós, mas para abrir espaço para algo novo. Continuem caminhando.
Continuem sonhando. Continuem acreditando que vale a pena construir uma Igreja
simples, próxima, que acolhe antes de julgar, que escuta antes de responder,
que sabe chorar com quem chora e sorrir com quem sorri.
Levo cada um
de vocês no coração e na oração. Esta foi a minha primeira diocese como padre
e, depois, como arcebispo. Ela jamais ficará para trás. Faz parte da minha
história, da minha vocação e da pessoa que hoje eu sou.
Junto desta
mensagem, deixo também a homilia da minha última Missa nesta arquidiocese.
Talvez ali estejam muitas das coisas que hoje meu coração já não consegue
dizer.
Obrigado por
tudo.
Obrigado por
me ensinarem que o amor de Deus tem rosto, tem nome e tem endereço.
Y, por último, los quiero mucho. Amo muito vocês. Obrigado por
terem me ensinado, todos os dias, que o amor só se torna verdadeiro quando se
deixa amar. Levarei cada um de vocês comigo, guardado no coração, onde a
distância nunca será capaz de apagar aquilo que Deus escreveu entre nós.
Continuem
amando Jesus. Continuem amando a Igreja. Continuem rezando uns pelos outros. E
nunca deixem que lhes roubem a esperança.
E, por
favor... não se esqueçam de rezar por mim. Eu prometo fazer o mesmo por cada um
de vocês, todos os dias.
Com carinho,
profunda gratidão e uma saudade que já começou,
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Dom Murilo Herrmann