Carta Pastoral | “O tempo é chegado o Reino de Deus está próximo Arrependam-se e creiam nas boas-novas!”

 

ARQUIDIOCESE METROPOLITANA PARAÍBA DO SUL
CHANCELARIA ARQUIDIOCESANA

CARTA PASTORAL PARA O INÍCIO DA QUARESMA

 “O tempo é chegado o Reino de Deus está próximo Arrependam-se e creiam nas boas-novas!”

 Ao iniciarmos o santo tempo da Quaresma, somos conduzidos a um mergulho mais profundo na nossa própria verdade. A liturgia nos retira da superficialidade, nos convida ao silêncio interior e nos coloca diante da Palavra que ilumina e também confronta. No Evangelho segundo Marcos 1,15, ouvimos Jesus proclamar com autoridade e ternura: “O tempo é chegad o Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas-novas!”. Essa afirmação não pertence apenas ao início da vida pública de Cristo; ela continua ecoando na história e alcança cada um de nós neste momento concreto. O “tempo” de que fala o Senhor não é simplesmente a sucessão dos dias, mas o tempo favorável da graça, a oportunidade que Deus nos oferece para reorientar a vida, rever escolhas, curar feridas e retomar o caminho do amor.

 A Quaresma é esse tempo privilegiado em que Deus nos recorda que nunca é tarde para recomeçar. Arrepender-se não significa apenas reconhecer erros passados, mas permitir que o coração seja transformado. É deixar que Deus desmonte em nós o que foi construído sobre o egoísmo, a indiferença ou o comodismo, para edificar algo novo sobre a rocha da fé. Crer nas boas-novas é confiar que a misericórdia é maior que o pecado, que a graça é mais forte que a fraqueza e que o amor de Deus é capaz de renovar o que parecia perdido. O Reino está próximo porque o próprio Deus se fez próximo; Ele não nos observa à distância, mas caminha conosco, sustenta-nos e chama-nos a uma vida mais plena.

 É nesse horizonte que a Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, nos ajuda a concretizar a conversão quaresmal. Com o tema Moradia e Fraternidade e o lema inspirado no Evangelho segundo João 1,14 “Ele veio morar entre nós” somos convidados a contemplar o mistério central da nossa fé: Deus armou sua tenda no meio da humanidade. O Verbo se fez carne e habitou a nossa história. Ele entrou nas casas simples, partilhou refeições, experimentou o cansaço das estradas e conheceu até mesmo a insegurança de não ter onde reclinar a cabeça. Ao escolher morar entre nós, Deus revelou que a vida humana é sagrada e que cada pessoa possui uma dignidade que não pode ser negada.

 Quando unimos o anúncio de Marcos “O Reino de Deus está próximo”  com o testemunho de João “Ele veio morar entre nós” compreendemos que o Reino se manifesta justamente nessa proximidade. Deus não inaugura seu Reino por meio de imposição ou poder terreno, mas pela presença solidária, pela encarnação, pela partilha. Se Cristo veio morar entre nós, então a realidade da moradia deixa de ser apenas uma questão material e se torna expressão concreta da fraternidade. Um lar não é apenas um espaço físico; é lugar de proteção, de convivência, de identidade e de esperança. Onde falta moradia digna, falta também um sinal visível da justiça do Reino.

 Por isso, a conversão quaresmal que o Senhor nos pede precisa ultrapassar os limites do interior e alcançar as dimensões sociais da vida. O jejum nos educa para a sobriedade e nos abre à partilha; a oração nos coloca em comunhão com Deus e nos faz enxergar o próximo com seus olhos; a caridade nos impulsiona a agir. Arrepender-se, neste contexto, é rever nossa relação com os bens, com o espaço que ocupamos, com as prioridades que estabelecemos. Crer nas boas-novas é acreditar que é possível construir uma sociedade onde a moradia seja direito e não privilégio, onde a fraternidade não seja discurso, mas prática cotidiana.

 A Quaresma nos chama a permitir que Cristo faça morada em nosso coração. Se Ele veio morar entre nós, também deseja habitar em nós. E quando o coração se torna morada de Deus, ele se amplia, torna-se mais sensível à dor alheia, mais comprometido com a justiça, mais disposto a construir pontes. A transformação interior que buscamos neste tempo precisa refletir-se na maneira como tratamos as pessoas, como nos posicionamos diante das desigualdades e como colaboramos para que ninguém seja excluído da “casa comum” que Deus nos confiou.

 Que este tempo sagrado não seja vivido apenas como tradição ou rito, mas como verdadeira travessia espiritual. Que possamos escutar o chamado de Jesus com seriedade e esperança, reconhecendo que o tempo é agora, que o Reino está próximo porque Deus está próximo, e que a presença d’Aquele que veio morar entre nós nos impulsiona a tornar o mundo mais fraterno. Que ao final desta caminhada, celebrando a Páscoa, possamos testemunhar que permitimos ao Senhor transformar nossa vida e que, pela nossa conversão, um pouco mais do Reino se tornou visível entre nós.

PE. SÁVIO RODRIGUES
Chanceler
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